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quarta-feira, julho 19, 2006

ADEUS

Quando procurava o texto "Cântico negro" pela internet (pois lembrava-me dele muitas vezes e queria postá-lo aqui), encontrei um site novo (releituras-tenho o link aí do lado esquerdo se quiserem visitar) e tenho lá lido tantas coisas lindas q quero partilhar. Por isso é q nos últimos posts é o q se tem visto. Alguns textos talvez até já conheçam, mas confesso q, infelizmente, a maior parte eu desconhecia. Tenho lido grande parte e os que gosto mais (ou q têm um tamanho mais adequado) guardo e depois vou postando aqui. Vejam lá o de hoje: achei-o lindo.

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

8 Comments:

Blogger Raquel Santos said...

já espreitei o releituras e gostei, n conhecia
este texto é fantástico basta q seja de quem é simplesmente

bjs

19/7/06 14:14  
Blogger ciprita said...

Eugénio de Andrade é o meu poeta preferido, quer para os dias tristes, alegres, e assim assim...poemas que sinto com a alma e o coração.

19/7/06 19:54  
Blogger greentea said...

as palavras, as escritas têm sempre de ser reinventadas...para não ficarmos a olhar para um saldo de caixa negativo
como Fernado Pessoa/B . Soares

desassossegadamente

20/7/06 09:33  
Blogger Xica said...

Raquel
Ainda bem q gostaste do link e do texto (eu também o adorei).

Ciprita
Confesso q não conheço muita da obra de Eugénio de Andrade, mas depois deste texto...não me escapa.
Gostei muito da forma como ele passou a mensagem, a ternura com q ele disse Adeus.

Beijitos p as duas.

20/7/06 09:33  
Blogger Xica said...

greentea
Ás vezes parece q as palavras se esgotaram, não achas? Q tudo já foi dito. Olhamos p trás e parece q já nada de novo há p dizer. Mas depois lá aparece alguém q até pode estar a falar do mesmo, mas (lá está) reinventa a forma de o dizer.
Beijito.

20/7/06 09:36  
Blogger amigona said...

Eugénio é sempre o - Eugénio!
Beijo...

20/7/06 10:23  
Blogger Xica said...

Amigona

Beijito.

20/7/06 10:48  
Anonymous Anónimo said...

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»

18/8/06 02:12  

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